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Mães de Balzac


(Correio do Povo, 13 de maio de 2012)

Escalaram o Afonsinho para apitar a final do campeonato e ele bateu pé. Segundo domingo de maio? Ah, não. Arranjassem outro, cancelassem a rodada, dessem W.O. aos dois times por falta de arbitragem. Estava fora. Primeiro impedimento, cartão ou pênalti e pronto! Lá vinha torcida xingar sua mãe. Noutra situação, tudo bem. Fingia de surdo. Ossos do ofício. Agora, apitar final em pleno Dia das Mães? Nem pensar!
O juiz, epicentro imediato de toda culpa no ferver dessa paixão visceral brasileira, o futebol, carrega este carma justamente por termos, na mãe, nosso ponto mais sensível. Nosso coração e lábios, como dizia Tchackeray. E não entendo quando chega um sujeito do nada, no trânsito, e por muito pouco fecha a cara e o punho e manda: “Seu filho da mãe!”. Ué? Não somos todos, de um jeito ou de outro, filhos de uma mãe? O que há de ofensa nisto? Sorte nossa, então, se formos uns bons filhos da mãe.
Quando menino, qualquer rusga ou fúria estudantil tinha um limite ético: a mãe do outro. Ofendê-la era imperdoável. Peso, altura, verruga no queixo ou alguns tamanhos secretos, tudo bem. Mãe, nunca. O menino mais calmo virava onça e os amigos do seu inimigo mudavam de lado, constrangidos. Opa. Mãe é sagrada, pô. Não vale. Mãe é mãe. Mesmo que seja a do Carlos Cachoeira ou do Demóstenes Torres. O bom é que as mães atentas ao noticiário sairão a educar um pouco melhor suas crianças, apontando o mau exemplo. Que só educando se estanca a fábrica brasileira de bandidos. E são assim, as boas mães. Querem o melhor para seus filhos. Sempre. Do ventre ao seio, na simples presença e no conforto. Ser mãe é dar colo e carinho. Umbigo e calor. Exemplo. E caminho.
Ser mãe pode ser uma incógnita facilmente decifrável. Ter sempre uma última recomendação - e mais uma blusa contra o frio -, ainda que a vida nos tenha levado a trocar tiros com assaltantes, combater no Haiti ou jogar na zaga do Bagé. Comemos muito? Comemos pouco? Dormimos mal? Dormimos demais? Saímos à noite ou nos isolamos no quarto? Ela se preocupa. Em nome de um amor incondicional, protetor e inabalável, definitivamente amor. O abismo profundo que Balzac anunciava, sempre pronto a nos acolher e perdoar.
As mães de Balzac, porto seguro. De policiais ou bandidos, mafiosos do Congresso ou golpistas de ocasião. São filhos. Basta. Os melhores. Donos do nariz mais bonito, ainda que lembre uma desastrada combinação de ornitorrinco com a Torre Inclinada de Pizza. Elas idolatram, exibem fotos às amigas e os saúdam como a personificação da beleza grega. Afinal, para uma mãe, tudo é - e sempre será - maravilhoso num filho seu.
Exceto, claro, algumas noras.

 

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